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Quem sou eu?

leablog1Meu nome é Léa Michaan, sou

Psicoterapeuta e Psicanalista e convido a

todos que entram neste blog a ler meus

artigos a respeito das inúmeras e

inusitadas situações da vida. Espero que a

leitura destes artigos desperte reflexões e

idéias que são muito bem vindas!

leamichaan@uol.com.br

                                                                  Dicas para as dificuldades do dia-dia,

                                                                      voce encontra no site abaixo:

                                                                          http://psicologaresponde.wordpress.com/

                                                                Telefone do consultório: 2628 1439

                                                                                                                                                                                                                    

                                                               

                                                                                                                                                                                                  

Leia, abaixo, através dos links, alguns dos vários sites e portais que publicaram o artigo, que aborda esta relevante e delicada relação…

PORTAL DA EDITORA ABRIL

http://www.abril.com.br/noticias/comportamento/mae-filha-bela-dificil-relacao-532235.shtml

PORTAL DA REVISTA VEJA

http://veja.abril.com.br/agencias/ae/comportamento/detail/2009-09-17-532244.shtml

PORTAL ÚLTIMO SEGUNDO

http://ultimosegundo.ig.com.br/brasil/2009/09/21/mae+e+filha+uma+bela+e+dificil+relacao+8551922.html

  Nem toda mulher é mãe, e nem toda mãe possui uma filha, mas com certeza, toda mulher tem uma mãe, portanto, este artigo interessa a todas as mulheres.

Desde o nascimento da filha até o envelhecimento da mãe, a dupla, mãe e filha, passam por uma grande trajetória permeada de sentimentos e emoções complexos, ambíguos, positivos e negativos, tais como; Amor, carinho, felicidade, continuidade, ódio, ciúmes, competição, disputas, rivalidade, inveja, expectativas, frustrações, temores, gratificações, alegrias, ressentimentos, surpresas…

Isto não acontece à toa, uma vez que as relações familiares são as mais difíceis justamente, devido à proximidade entre os membros e a ausência de fronteiras, o que acarreta grandes dificuldades em perceber e aceitar as diferenças. Na relação mãe-filha é comum haver uma mistura de identidades, na qual uma compensa as faltas da outra. Por exemplo, se a mãe é infantil, a filha tende a ser mais madura, se a mãe é irresponsável, a filha tende a se ocupar das responsabilidades que cabem a esta mãe, se a mãe não teve, por sua vez, uma mãe suficientemente boa, ela apresentará muita dificuldade em dar a filha àquilo que não recebeu, e nestes casos há uma questão transgeracional, pois esta filha também ficará privada desta experiência e por sua vez também não terá de onde resgatar e proporcionar a sua filha, etc.

Muitas vezes, na relação com a própria filha, a mãe tenta compensar a relação mãe e filha que gostaria de ter e não teve, e a filha se sentirá encarregada de ser uma mãe para a própria mãe e começará a cuidar da mãe: lembrando-a dos compromissos, responsabilidades, ajudando com a casa, com os irmãos e dando conselhos. Outras vezes, a mãe frustrou-se demasiado com a sua própria mãe, e sem perceber, inconscientemente, faz com que a filha pague esta conta, não encontrando em si possibilidade de ser uma mãe presente, interessada e que respeita a individualidade da filha. Isto pode acontecer por um sentimento de inveja ou vingança inconsciente, pois lhe dói ver a filha receber algo que ela não recebeu. Esta dor a impedirá de proporcionar cuidados à filha, a qual se sentirá abandonada. Nestas ocasiões, também pode acontecer o oposto, uma vez que a mãe não recebeu aquilo que lhe parecia justo, então para não repetir o erro de sua mãe, ou para se recompensar da relação de intimidade entre mãe e filha que não viveu, cobrirá a filha de atenção transformando esta filha no objeto de interesse principal de sua vida. Nestes casos, além de sufocar a filha, um dia, esta mãe cobrará caro por tanta dedicação e a filha poderá sentir que possui uma dívida impagável com a sua mãe. A única maneira de cortar qualquer um desses ciclos viciosos entre mãe e filha é obtendo consciência da força motriz que movimenta esta relação tão delicada.

A relação mãe e filha começa a partir do momento que a mãe engravida e descobre que é uma menina. Muitos psicanalistas defendem a idéia que esta relação começa no dia que a mãe era filha, e esta colocação faz sentido, uma vez que, como já vimos, a mãe busca reatualizar a relação com sua mãe através do relacionamento com a sua filha. Mas, fiquemos com a primeira idéia, então, desde a gravidez começam as projeções repletas de sonhos, expectativas, fantasias e desejos sobre a bebezinha que ainda nem chegou ao mundo, e assim, quando a filha nasce, ela já chega carregada de projetos e incumbências. Portanto as mães que estão tendo contato com este conhecimento, saibam que ter consciência disso já é o primeiro passo para aliviar a carga repleta de sonhos maternos dos ombros de suas filhas. Mesmo que a sua filha já esteja bem grandinha, seja até casada, ou até já possua seus próprios filhos, este saber pode fazer toda a diferença para resgatar a boa relação com a sua filha, ou melhora-la ainda mais. Aceitá-la como ela é, olhar para a filha sem expectativas, significa poder amá-la mesmo que seja bem diferente dos sonhos e desejos que projetamos nela. O mesmo vale para as filhas que carregam as suas mães dos desejos que esperam receber desta.

De um modo geral, a tarefa da mãe é ajudar a filha a se desprender e ir em busca de suas próprias realizações, porém mães também são humanas e nem todas atingem tal maturidade, portanto mães que não são suficientemente maduras e resolvidas quanto aos seus desejos e emoções apresentam grande dificuldade nesta tarefa. Nestes casos encontramos filhas buscando realizar as aspirações maternas sem perceber, ou mães e filhas competindo pela beleza, feminilidade e realização profissional, entre outros. O que fazer nestes casos para resgatar a relação? Em primeiro lugar é útil que cada qual possa ter em mente que apesar da proximidade da relação mãe-filha, cada uma é um ser diferente e SEPARADO da outra. A partir desta conscientização, mãe e filha começam a ter um espaço para se realizar individualmente, assim como também deixar de culpar, pressionar, exigir e cobrar da outra para ser aquilo que esperam de uma filha ou de uma mãe. Há uma diferença entre a expectativa de uma e aquilo que a outra pode ser. Se a mãe ou a filha puderem corresponder às expectativas recíprocas, o que eu duvido, muito bem, caso contrário, que é o que acontece em geral, é uma boa oportunidade para aprender a lidar com as frustrações e perceber que a frustração existe não porque a outra, ou a vida não me satisfez, mas é por conta da intensidade dos meus desejos.

Pensando a trajetória da relação mãe e filha desde o nascimento da filha até o envelhecimento da mãe, podemos observar que a principio, na infância, a filha vê a mãe como uma musa, ela quer agradar e imitar a mãe em tudo: usa seus sapatos, sua maquiagem e roupas, assim como também, utiliza frases e atitudes que a mãe costuma usar. E a mãe por sua vez, olha para a filha e vê nesta a realização de seus desejos: trunfos, beleza, inteligência, saúde, riquezas… Porém, o ser humano é um complexo de sentimentos, e por trás desses nobres desejos, escondem-se os maléficos, os temores de que a filha irá superar a mãe em graça, beleza, e sorte na vida. Assim, como na obscuridade, a filha sente inveja dos poderes da mãe adulta e odeia ser dependente desta, ou teme não alcançar tantas conquistas quanto a sua mãe. Uma vez que, nem mãe nem filha entram em contato com estes sentimentos hostis, eles ficam contidos e reprimidos, e muitas vezes podem vir a tona, explodindo com força total, causando muito estrago no relacionamento, análogo a força das águas que estão presas e pressionadas pelo dique. Já na adolescência, o quadro muda de figura, a filha começa se rebelar não aceitando a dependência da mãe, e tudo o que era bonito na mãe, começa a se tornar feio, em geral, para diferenciar-se da criança que a filha era, quando chega à fase adolescente, ela quer ser o oposto de sua mãe e acha tudo o que a mãe diz, veste ou faz antiquado. Muitas mães conseguem passar tranquilamente por esta fase, caso possam resgatar a lembrança das adolescentes que elas mesmas foram.

Porém, assim como no conto de fadas da Branca de Neve, o desabrochar da filha é como um espelho no qual a mãe pode vislumbrar o seu próprio brochar. E na inconsciência a mãe culpa a filha pela perda de sua própria juventude. Nesta fase, em geral ocorrem muitos desencontros entre as mães e suas filhas. Algumas mães começam a se vestir como adolescentes numa desesperada tentativa de agarrar a juventude, outras mães pegam, literalmente, no pé de suas filhas, controlando-as ao máximo, impedindo-as de serem elas mesmas, como uma forma de imprimir-se na identidade da filha jovem, outras gritam e brigam pelas mínimas razões com as filhas chamando-as de ingratas, preguiçosas, namoradeiras e encontram defeitos em tudo o que as filhas fazem, retaliando-as, inconscientemente, por todo o mal que, na fantasia, esta lhe causa quando cresce.

Porém, aquelas mães que conseguem entrar em contato com a realidade psíquica – mundo interno (subjetiva) e do mundo externo (objetiva) que suas filhas não são as responsáveis por seu envelhecimento, que na adolescência faz parte a tentativa de ser o oposto daquilo que a mãe é, que ela não possui a tarefa de realizar os sonhos e expectativas de sua mãe, que aquilo que cai bem na filha provavelmente pode ficar ridículo para a mãe, que cada uma vive as suas fases durante a vida, e que a mãe já viveu a sua adolescência e agora é a vez da filha, somente o contato com esta realidade interna e externa indicará o caminho pelo qual a mãe poderá encontrar os prazeres próprios da fase da vida em que vive, e principalmente poderá obter muito mais encontros do que desencontros com a filha.

Nesta etapa a adolescente quer ser escutada e levada a sério. Se a mãe puder ouvi-la, buscando legitimar seus sentimentos, muito provavelmente encontrará na filha uma escuta atenta, e as duas poderão se encontrar, exatamente dos lugares que ocupam: mãe com suas funções e filha com as suas funções. A fase adulta da filha, assim como o casamento desta e a possibilidade da mãe tornar-se avó, provavelmente nenhuma dessas etapas tão marcantes da vida passam sem desencontros, frustrações, mágoas ou ressentimentos, mas quanto mais cada qual, mãe e filha puderem observar todo evento por diferentes prismas, buscar compreender as razões que levaram cada qual a agir desta ou daquela maneira, isto é, não ficarem presas na ocorrência frustrante, e sim ver o que há por trás, ou seja, o que pode ter levado a outra a agir desta ou daquela maneira, e principalmente, não atrelarem-se aos próprios desejos e expectativas, mãe e filha poderão compartilhar muito mais as alegrias inerentes às mudanças e transformações que desencadeiam a novas etapas.

Cabe salientar que uma “boa mãe” só existe no imaginário de uma sociedade familiar idealizada, há relações mãe-filha que permitem superar suas dificuldades, enfrentando a prova do tempo e das relações, que, inevitavelmente se modificam.

Finalizando, cabe ressaltar que o nascer de uma filha significa uma relação passível de ser eterna enquanto vivas, pois quando nasce um menino, muitas mães sentem, e não sem razão, que este homenzinho é dela até que encontre outra mulher e se case, então, a mãe será substituída, mas a filha poderá ser sua filha para sempre.

“Podemos ser caçados como animais, mas, não precisamos nos tornar animais” – frase extraída do filme – Um Ato de Liberdade – Esta colocação parece óbvia, porque é verdadeira, pena que nem toda a verdade se torne realidade.

Dentro do ser humano habitam duas forças de vida: uma humana e outra animal. Às vezes a pessoa é mais gente do que bicho, e em outras ocorre o oposto, ou seja, o bicho prevalece, em geral, quando as necessidades básicas de sobrevivência gritam dentro do ser, então, este se torna mais animal do que humano, ao exemplo da fome, cansaço, pavor, dor e a ofensa – estado mental exclusivo dos humanos, capaz de transformar o ser humano no mais selvagem dos animais.  Isto ocorre porque o ser humano carrega uma tendência de se ver a partir do olhar do outro, e por isto fica tão terrivelmente ofendido quando o outro não lhe confere as devidas honras, as quais, cada qual sente que lhe cabem.

Ontem à noite, fomos assistir ao filme –Um Ato de Liberdade – O filme conta a história de tres irmãos  judeus que  se escondem na floresta para não serem capturados pelos nazistas durante a segunda querra mundial, pouco a pouco uma multidão agraga-se a estes até formarem uma comunidade, na floresta, com mais de mil pessoas. O filme retrata suas dificuldades e batalhas pela sobrevivência. A crítica fala de uma mal amarrada e conflituosa relação entre os irmãos líderes de refugiados perseguidos pelos nazistas – particularmente discordo da crítica. Esta conflituosa relação entre irmãos – ora se amam, ora se odeiam, ora são bichos, ora são gente – retrata, muito bem, a luta interna que ocorre individualmente dentro de cada ser humano a qual oscila em repentes e não é nada “amarrada”, entre as duas tendências humanas (gente-bicho). Esta postura entre os líderes-irmãos, no filme, era esperada numa situação em que era muito fácil desumanizar-se, uma vez que estavam em grande número de pessoas: mais de mil, não possuíam alimentos suficientes, estavam desabrigados no mato vivendo como animais, passavam frio, não dispunham das mínimas condições de higiene, viam sua gente ser abatida como animais e eram perseguidos como animais.

A meu ver, este filme é uma lição de vida, pois nós todos, sem muita fome visceral, luta por sobrevivência, perseguições animalescas, entre outros, tornamo-nos verdadeiras bestas ofendidas devido a pequenas faltas que em nossa fantasia, os outros cometem contra nós – Isto ocorre porque, erroneamente utilizamos o olhar do outro para nos enxergar.

Cada um de nós busca desesperadamente a consideração, o apreço e o próprio valor no espelho daquele que nos mira, uma vez que sem a tal consideração, ficamos tão bravos, porém, nos enganamos pensando que estamos zangados com o outro que não nos dá o devido valor, na realidade, nos embravecemos conosco por mantermo-nos aprisionados no olhar do outro, pois,  sem a confirmação alheia de que somos importantes, tornamo-nos insignificante aos nossos próprios olhos.

Mesmo se o outro não nos fez efetivamente nenhuma ofensa declarada, só a simples existência de suas qualidades basta para arruinar-nos diante do espelho – Então, ao exemplo da madrasta da branca de neve, queremos quebrar o espelho que representa o outro e arrancar-lhe o coração – Similar ao que os nazistas tentaram fazer aos judeus. Neste movimento tornamo-nos mais animalescos, e só nos resta, gostar menos, ainda, de nós.

O ato de liberdade para nós, nos dias de hoje, é a batalha de atravessarmos florestas selvagens, provavelmente dentro de nós mesmos para não sermos capturados e aprisionados naquilo que, em nossa fantasia, o olhar do outro revela sobre nós – Este aprisionamento no olhar de outrem é a principal causa da morte das nossas capacidades, recursos e criatividade.

Álbum de Retratos

 A sobrinha de Ernesto vai casar! A emoção, no coração do emotivo tio já começou no mesmo dia em que recebera a notícia de que a sobrinha e o noivo marcaram o casório. Num primeiro momento bateu aquela nostalgia em Ernesto que ficou com cara de bobo e um sorriso besta pensando: “Meu Deus. Minha sobrinha vai casar! Como o tempo passou tão rápido, até parece que foi ontem que eu troquei as fraldas dela…”. Depois veio o drama do presente; Como a grana na conta bancária de Ernesto anda curta – na casa de Ernesto, tudo é racionalizado: Economiza-se aqui para comprar algo ali, mas, como sobrinha é sobrinha, e Ernesto não queria fazer feio, na hora da escolha do presente, acabou comprando o mais caro dentre as suas possibilidades, mesmo ficando um pouco apertado, valia a pena, afinal, as pessoas não se casam todos os dias, e além do mais: Sobrinha é sobrinha e, como, Ernesto não queria parecer sovina e o seu desejo, além de agradar a sobrinha, era sair bem na fita – Atender as exigências das aparências – Ernesto também era escravo das aparências, como muitos de nós, simples mortais – perdemos a liberdade em nome da Grande Ditadora: Sua Excelência A Minha Imagem!

Durante a semana que antecedeu o casamento, Ernesto estava completamente voltado para o grande dia – comprou terno novo, gravata nova e até sapato novo, claro que não nesta rapidez com a qual descrevo tais aquisições. Ernesto delongou-se bastante até conseguir decidir por cada peça, ele olhava o seu reflexo no espelho da loja e se imaginava glamouroso ostentando aquele traje ou acessório no casamento. Ele precisava ficar bonito na festa e sair bem nas fotos, afinal, esta lembrança dura para sempre…

No dia do casamento, Ernesto até parecia a noiva, acordou ansioso, e a cada instante lembrava que hoje era o grande dia, então, sentia até aquele friozinho na barriga. O ansioso tio da noiva cuidou de todos os detalhes para estar impecável na festa. Caprichou o máximo no visual, afinal este seria o casamento de um membro de sua família. Durante a festa, Ernesto emocionou-se e também se sentiu, um pouco, o centro das atenções. Posou para um montão de fotos: ora com os outros tios, ora com seus filhos e sua esposa, ora com os noivos, ora só com a noiva, ora com amigos, ora fazendo gracinha ou ficando sério, e por ai vai. Onde estivesse o fotografo bem na frente posava Ernesto.

Passaram-se uns oito meses, até que num encontro de família, a sobrinha, finalmente, trás o tão esperado álbum de casamento: Capa linda com os nomes dos noivos bordados. O tio pega o álbum na maior expectativa e vai virando as páginas uma a uma ávido à encontrar a própria imagem, até chegar à última página e perceber que nenhuma foto sua fora escolhida para aparecer no álbum. A sobrinha se dá conta da gafe que cometera, mas, não havia mais jeito de incluir um retrato do tio, pois este era um desses álbuns modernos com fotos permanentes. A sobrinha, sem jeito, buscava desesperada alguma justificativa para a exclusão do tio de seu álbum: disse que chamou mais de mil vezes, mas estes tios que não apareceram na foto simplesmente não atenderam aos seus chamados, disse que não consentiu a aparição no álbum das pessoas que não saíram bem, para o próprio bem delas, etc. Mas nenhum de seus argumentos poderia encobrir a verdade: O tio fora excluído do álbum de casamento.

Pobre Ernesto ficou sem ação, pois, não caia bem reclamar, não estava com disposição de levar na gozação, ele precisava reequilibrar-se com esta inesperada  realidade para conseguir pensar em qual atitude tomar tanto externamente, quanto no seu mundo interno. Como  iria significar para si próprio o ocorrido?

Na conversa que pôde ter consigo mesmo dentro de sua mente, havia uma mesa de reunião com vários diretores, todos com igual poder de decisão, e cada qual tinha a sua razão: o numero um dizia que Ernesto tinha todo o direito do mundo de sentir-se ofendido e ainda deveria pedir satisfações; o segundo diretor dizia que a sobrinha não tinha obrigação nenhuma de colocar a foto dele no álbum; o terceiro não estava zangado, porém, magoado, ficara triste porque a sobrinha, outrora querida, não fazia questão de guardar a recordação fotográfica de seu tio Ernesto neste momento tão importante de sua vida; o quarto diretor rachava o bico de rir de Ernesto, chamando-o de maricas, uma vez que o álbum é só um pedaço de papel; outro diretor fazia desdém da porcaria do álbum e dizia que Ernesto nunca na vida iria olhar para este álbum de qualquer jeito, e quando ele quisesse se ver, era só olhar para o espelho… Com tantas vozes em sua mente, Ernesto estava dividido em mil pedaços em parceria ao  seu coração partido com a desfeita da sobrinha.

O resultado deste causo foi: A sobrinha já fez 20 anos de casada e as pessoas que saíram no álbum nem lembram deste casamento; O episódio ficou marcado no tio, que hoje em dia a considera bem menos do que antes, porém, a ausência tornou-se muito mais presente do que a própria presença e o tio Ernesto acabou sendo o mais lembrado a cada vez que a sobrinha olha o álbum de retratos.

Léa Michaan,

20 de Abril de 2009

ENGOLIR

A gente só sente que esta engolindo algo quando esta ação é difícil de realizar, quando temos que forçar cada músculo de nossa glote e epiglote no sentido desta prática, ao ponto daqueles dois segundos da deglutição parecer levar horas, afinal, existe coisa pior do que engolir uma comida que a gente odeia?

 Sabe aquela gororoba que tem uma superfície gosmenta e um gosto tão ruim que faz arrepiar as laterais da parte superior da garganta e automaticamente abaixamos as laterais dos lábios? Enquanto isso na mente vem a imagem de uma barata sendo esmagada dentro da sua boca? Por outro lado, já, a coisa boa desce no automático, ela escorrega gostoso, de modo que  nem percebemos que engolimos.  A ação passa despercebida e rápida, mal aquela sopinha gostosa chega esquentando a garganta e puf sumiu, nem deu tempo de curtir o bem estar que esta pequena porção de calor e alimento proporciona ao frio, à fome e as vezes à irritação da nossa laringe e já foi – virou passado – Como o tempo é relativo! Acho que não conheço nada tão relativo quanto o tempo.

Voltando ao ato de engolir, vocês já perceberam que a gente só lembra de alguma parte do corpo quando ela dói, caso contrário, a coitadinha fica lá fazendo a função dela bonitinha e nem nos damos conta que ela existe. Quer ver só, por exemplo: Quando alguém lembra que tem uma cabeça? Só quando ela dói! A mesma coisa com os braços, pernas e por ai vai.

Pois é, ontem a minha cara amiga Matilde, lembrou e muito de que existe nela um aparelho para engolir. Ela teve que engolir muito mais do que uma barata,  Matilde  engoliu alguns sapões enormes, daqueles que descem bem devagar, super gosmentos, e que a pessoa tem que fazer muita força para isto descer, tanto que até dói à epiglote e o sapão ainda fica metade na parte de baixo da epiglote e a outra metade na parte de cima.

Ontem a pobre Matilde engoliu uns dez sapões desses, de modo que hoje quando eu a encontrei ela mal podia falar, e pior ela não conseguia ouvir nem uma palavra do que eu dizia, pois, não conseguia digerir nada mais, uma vez que os sapões estavam ocupando todo o aparelho digestivo da moça. Voce provavelmente perguntará por que Matilde os engoliu? – Porque por mais custoso que fora engolir tais sapões, pior seria não engoli-los. Matilde ainda está com uma baita indigestão, mas só passando por isto ela poderá desenvolver a arte de não mais engolir sapões, mas transformá-los em ar e depois,  é só ARROTAR.

Léa Michaan -

13 de Abril de 2009

 

 Escrevo após uma longa experiência de vida, pensada e repensada, e como não poderia deixar de ser, passível a novas reflexões e mudanças futuras…

Tudo começou quando ingressei num país em que as pessoas faziam a seguinte equação: A pessoa é = Ao que a pessoa tem, ou seja, Ter = Ser.

Ter neste caso é possuir bens materiais não aqueles relativos a conquistas da evolução pessoal, intelectual ou artística. Também não é ter generosidade, simpatia, bom humor, boa articulação, experiências de vida, bom senso, e mais um sem numero de possibilidades dentre as qualidades humanas, pois, isto entra na categoria de ser.

Muitas vezes quando me apresentavam alguém que morava neste país, no instante em que esta virava as costas, enumeravam para mim as características de tal pessoa, aliás, das posses de tal pessoa, levantavam o rosto, contraiam o queixo, faziam um beiço, baixavam os cantos da boca e arregalavam os olhos. Sabe aquela cara de admiração misturada com inveja?

Então me sentia tão completamente enredada nesta atitude que me perdia de mim mesma. Se você puder relembrar as suas experiências, provavelmente perceberá que já passou por esta situação em que o outro fala algo que difere de sua opinião, você pode perceber que isto não encaixa nas suas idéias, porém, ainda não pensou em outra idéia sobre o assunto. Mas você ainda nem conseguiu ponderar isso que está acontecendo com você, e o outro já te inundou com as próprias idéias. Neste momento você está tão ocupado tentando desvencilhar-se da enxurrada das palavras do outro, que nem percebe a existência de outras possibilidades. E aí, quando você dá por si, já esta fazendo à mesma expressão de admiração que o seu colega e balançando a cabeça num sim, como se você fosse o espelho do outro. E assim parecemos soldadinhos, espelhados uns nos outros, vestindo-nos igual, pensando igual (se é que ainda pensamos), falando igual, rindo igual, chorando também da mesma maneira. A mente está tomada com a necessidade de trocar de carro, de casa, de roupa, de nariz, de bunda, de peito, disso e daquilo para ficar uniformizado, conforme o modelo.

E, de tal modo, todos nós somos um e nenhum.

Léa Michaan,

23 de Março de 2009

 

 

  Conviver com diferenças econômicas não é algo fácil porque inevitavelmente caímos na armadilha em que aquilo que se tem acaba falando mais alto do que aquilo que se é. Principalmente num universo capitalista e consumista, como o nosso.

Fui sábado à noite ao cinema com um casal de amigos e conversávamos sobre certa escola de elite em São Paulo.

Minha amiga dizia que não colocaria seu filho numa escola dessas por causa dos valores que ali são transmitidos pelos freqüentadores, alunos e familiares da tal escola.

Estes valores são relativos àquilo que o dinheiro pode comprar.

Concordo com ela que se a energia está canalizada para uma coisa, vai faltar para outra, neste caso, se a mente das pessoas está totalmente voltada para status e bens materiais, vai faltar mente para o lado intelectual, artístico, espiritual, afetivo, entre outros, afinal, saber dosar é a grande arte de saber viver.

Durante a conversa eu falei que nesta escola todos os materiais são padronizados, os livros, cadernos, mochila, etc. E que este é o universo das crianças e é neste lugar que elas transitavam.  Minha amiga revidou dizendo: “… o que é um caderninho perto de super viagens, carrões, mansões… etc.”. Eu discordei, fincando o pé de que estas coisas podem incomodar muito mais aos pais do que à criança.

Minha amiga falou que muitos chegavam à escola com motorista e mais de um segurança e começou a me descrever a técnica que algumas crianças saiam do carro escoltadas pelos seguranças, e os tipos de carros que as traziam para a escola, e as viagens de férias dessas crianças, etc. Tudo num tom de voz alterado, transmitindo certa raiva.

Fiquei então me perguntando: – Será que é porque o outro tem, ou porque ela não tem? E qual é o problema que existem pessoas que valorizam o outro pelo dinheiro? Todos precisam ter os mesmos valores que os dela? Ou que ela gostaria de acreditar que tem, porque se está tão incomodada que o outro não valoriza os menos economicamente afortunados, penso que ela mesma vai se desvalorizando por isso, e a raiva é dela com ela mesma.

 Por que tanta intolerância com pessoas que valorizam os outros pelo dinheiro que possuem? Afinal, cada um tem seus limites. Será que minha amiga não projetava no outro aquilo que sente inconscientemente por si mesma? Ou seja, um sentimento de menos valia por possuir menos bens materiais do que gostaria?

E no final de cada frase, muito alterada, ela me dizia: você vai por seu filho numa escola onde…?(algo relacionado ao bem material).

Eu fiquei pensando, em como é difícil conviver com diferenças econômicas porque é difícil ver o outro usufruir alguns bens materiais dos quais eu não tenho acesso.

Enquanto ela dizia: “Como você vai por seu filho numa escola em que as crianças”… E aí minha amiga desfilava verbalmente uma série de coisas, em detalhes, que só o dinheiro pode comprar. As palavras jorravam velozmente – Ela ia falando e eu pensando: É muito mais fácil, numa relação, ser aquele que tem mais dinheiro do que aquele que tem menos, porque ter menos pode provocar inveja, ou algum sentimento de inferioridade.

E, assim, da mesma maneira que aconteceu com minha amiga, podemos ficar tão fixados naquilo que o outro tem que o restringimos a isso, esquecemos que além de passar as férias nos melhores hotéis, ou ter um esquema com um monte de seguranças para entrar e sair do carro, esta criança, financeiramente bem afortunada, tem outras características.

Ela não é estritamente o dinheiro que possui, ela também é: simpática, ou não; bonita, ou não; interessante, ou não; companheira, ou não; inteligente, ou não; divertida, ou não; generosa, ou não; criativa, ou não; engraçada, ou não; agradável, ou não, etc.

Penso que minha amiga projetou naqueles financeiramente bem afortunados a própria ferida narcísica que ela carrega com relação ao dinheiro.

Concordo com minha amiga, palavras que ela não disse, mas que estão implícitas em todo o seu discurso: É necessário ser muito evoluído psiquicamente para conviver com pessoas que possuem um poder aquisitivo maior do que o nosso, e o inverso também é verdadeiro.

E assim, podemos tomar consciência da existência de mais um “muro” que se ergue para separar as pessoas, já tão divididas: além da raça; cor; religião; nacionalidade; partido político; time de futebol, ainda há o poder aquisitivo. Como já dizia Caetano: “A força da grana que ergue e destrói coisas belas”.

 Léa Michaan

18 de março de 2009